O vídeo em que o prefeito Carlos Augusto aparece gritando com ambulantes e dizendo “sou eu que mando” é um retrato brutal de autoritarismo e desprezo social. Em vez de dialogar com trabalhadores que só querem o direito básico de ganhar o próprio sustento, o prefeito escolhe o caminho da humilhação pública, do tom de ameaça e da truculência verbal. Quando um gestor olha para quem vive do trabalho informal e enxerga “bagunça”, o que ele está dizendo, na prática, é que os ambulantes não cabem na cidade que ele quer mostrar no palco do aniversário de Rio das Ostras.
A forma como o prefeito trata o ambulante Rodrigo é reveladora. Ao ouvir um trabalhador dizer que precisa estar no espaço de eventos para vender, Carlos Augusto responde com um intimidador “Até quando? Você vai ver até quando”. Essa fala, vinda de quem ocupa o cargo mais alto do Executivo municipal, não é apenas grosseria: é um recado de perseguição. Enquanto os secretários citados por Rodrigo podem ter “mais de uma renda” sem que isso incomode o prefeito, quem empurra carrinho, vende no isopor e depende da rua é tratado como alvo a ser controlado, calado e afastado.
A decisão de vetar especificamente a venda de bebidas alcoólicas por ambulantes no camping de Costazul levanta uma pergunta inevitável: a quem interessa essa proibição? Quando o prefeito afirma que “quem vende pipoca vai poder continuar, quem vende milho vai poder continuar, quem vende bebida alcoólica no camping não vai trabalhar”, mas não explica quem, afinal, terá o direito de vender dentro do evento, abre-se espaço para a pior suspeita: estaríamos diante de um festival pago com dinheiro público para beneficiar grupos privados, enquanto se expulsa justamente quem mais precisa trabalhar? Sem transparência sobre concessões, contratos e credenciamentos, a medida tem cheiro de injustiça e gosto amargo de favorecimento.
Ao completar 34 anos de emancipação, Rio das Ostras assiste a um prefeito que comemora a história da cidade pisando na dignidade de seus trabalhadores mais vulneráveis. Transformar uma data de celebração em palco de perseguição aos ambulantes é escolher, deliberadamente, um projeto de cidade elitista, higienista e excludente. Quando o poder público olha para um grupo de pessoas que grita “Queremos trabalhar” e responde com carro oficial, porta fechada e silêncio, fica claro quem está fazendo “bagunça”: não são os ambulantes, é a própria prefeitura, que usa a força do cargo para sufocar os mais fracos. O espaço segue aberto para que o prefeito explique, se for capaz, por que a festa da cidade parece ter lugar para tudo — menos para o direito de trabalhar.


































