Não é por acaso que a licitação da água foi marcada para uma sexta-feira de Carnaval, justamente dia 13. Em um período em que grande parte da população está distraída com festas, viagens e blocos, tenta-se empurrar goela abaixo um projeto de privatização que muda profundamente a vida das pessoas, sem um debate público à altura da gravidade do tema. Quando um processo dessa magnitude é escondido atrás do barulho do Carnaval, o sinal de alerta precisa soar forte: há algo que não querem que você veja.
Por trás do discurso de “modernização” e “melhoria dos serviços”, o que se anuncia é a entrega de um bem essencial à lógica do lucro privado. Em cidades que já passaram por processos semelhantes, o histórico é conhecido: tarifas aumentam, o acesso se torna mais desigual e os investimentos prometidos nem sempre se concretizam na proporção divulgada. No caso de Conceição de Macabu, que ainda preserva um custo de vida relativamente mais baixo, a tendência é que a conta pese justamente no bolso de quem menos pode pagar – trabalhadores, aposentados, famílias que já vivem no limite.
A fala do vereador Pedro Henrique, ao denunciar a data “maliciosa” e o conteúdo do edital, não é mero exagero retórico: é um retrato do modo como políticas públicas estruturais vêm sendo conduzidas, de cima para baixo, sem transparência, participação popular ou estudo sério de impactos a longo prazo. Quando um grupo de vereadores de diferentes municípios precisa recorrer ao Tribunal de Contas do Estado para, ao menos, ganhar tempo e tentar barrar o atropelo, fica exposta a fragilidade do debate democrático em torno de serviços essenciais como água e esgoto.
O mais grave é naturalizar esse processo, como se vender a água fosse apenas um ato administrativo qualquer. Água não é mercadoria comum: é condição de vida, de saúde, de permanência das pessoas em seus territórios. Se a licitação seguir adiante sem o mínimo de discussão com a sociedade, não estaremos diante apenas de uma “sexta-feira 13” simbólica, mas de um ponto de não retorno em que a população abre mão, quase sem perceber, de decidir o próprio futuro. E, quando a conta chegar – na fatura e na qualidade do serviço – já não adiantará dizer que ninguém avisou.
O espaço segue aberto para manifestação do prefeito de Conceição de Macabu, Valmir Lessa.


































