Prefeito de Casimiro de Abreu é acusado de ‘varrer para debaixo do tapete’ denúncia de roubo de combustível

Vereadores denunciam suposto roubo ligado ao secretário de Agricultura, cobram presença de secretários na Câmara e defendem CPI para apurar irregularidades na Prefeitura de Casimiro de Abreu

O que veio à tona na sessão desta quarta-feira (15) na Câmara Municipal de Casimiro de Abreu não é apenas “mais uma denúncia”. É o retrato de uma cidade em que o poder público parece ter se acostumado a tratar escândalo como rotina e suspeita de crime como detalhe administrativo. Vereadores revelaram um suposto esquema de roubo de combustível envolvendo o secretário de Agricultura e Pesca, Alex Maurino, e, mais grave, um possível acobertamento por parte do prefeito Ramon Gidalte.

As falas de plenário foram claras. “Recebemos essas denúncias à tarde e eu acho muito estranho o prefeito não ter tomado nenhuma atitude contra essas denúncias […] Ou seja, colocou pra debaixo do tapete, tentou esconder coisa errada”, disparou o vereador Lelei da Marmoraria. A crítica não é apenas política: ela se apoia em um documento oficial da própria prefeitura, assinado pelo secretário de Administração, Samuel Barreto Neves, e encaminhado ao gabinete do prefeito em 16 de março.

Nesse relatório, fruto de auditoria no sistema PRIME de abastecimento da frota, Samuel aponta fortes indícios de irregularidades: veículos já leiloados aparecendo como se estivessem sendo abastecidos; máquinas inservíveis e até roçadeiras costais constando como abastecidas em postos de Macaé e Silva Jardim; horímetros repetidos, consumo de diesel explodindo de poucos milhares de reais para mais de R$ 60 mil em um mês; e um serviço de manutenção cobrado por uma empresa ligada a servidora do próprio secretário Alex Maurino, que, segundo servidores da casa, jamais foi realizado.

Ou seja: não se trata de boato de corredor, mas de um conjunto de fatos documentados, enviados formalmente ao prefeito. E o que foi feito até agora? Nada que tenha chegado ao conhecimento da população. Nenhuma coletiva, nenhuma nota contundente, nenhuma transparência sobre providências concretas. O silêncio do governo municipal, diante de acusações dessa gravidade, fala alto. E o que ele diz não é nada edificante.

Quando uma vereadora, como Rosimery Mangifeste, precisa recorrer a ofício para pedir a simples convocação dos secretários envolvidos, significa que a disposição de “passar pano” está superando a obrigação de esclarecer. Quando um vereador precisa falar em Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para que o tema seja levado a sério, é sinal de que os mecanismos normais de controle falharam – ou foram deliberadamente travados.

É preciso dizer com todas as letras: se um prefeito recebe um relatório em que seu próprio secretário de Administração fala em “mecanismo criminoso” e em indícios de enriquecimento ilícito de agentes públicos, e mesmo assim não age de imediato para afastar os envolvidos, abrir procedimentos formais, comunicar órgãos de controle e informar a população, ele deixa de ser apenas gestor omisso e passa a ser, politicamente, cúmplice por inércia.

Não cabe à Câmara assumir o papel de tribunal, mas cabe, sim, forçar o Executivo a sair da zona de conforto e prestar contas. A criação de uma CPI, como defendeu Lelei da Marmoraria, não é exagero: é, neste momento, a única resposta proporcional à gravidade das suspeitas descritas no relatório. Se não há o que temer, que os documentos sejam abertos, que os sigilos sejam quebrados dentro da lei, que todos os abastecimentos suspeitos sejam confrontados com a realidade dos serviços prestados.

A gestão Ramon Gidalte precisa entender que, em tempos de descrédito generalizado com a política, “varrer para debaixo do tapete” não é mais opção. Cada litro de combustível supostamente desviado é dinheiro do contribuinte que falta na saúde, na educação, no transporte público. Quando o cidadão vê roçadeiras de prefeitura, com tanque pequeno, “abastecidas” em postos a 50 quilômetros de distância, a única conclusão possível é que alguém está debochando da inteligência da população.

Se o prefeito considera que seu governo não tem nada a esconder, que comece por um gesto simples: afastar preventivamente os envolvidos, apoiar publicamente a investigação, entregar todos os dados ao Ministério Público e abrir as portas da prefeitura para a fiscalização. Em Casimiro de Abreu, a escolha agora é clara: ou se enfrenta esse escândalo com transparência, ou se assume, de fato, que a cidade virou terra onde vale tudo – menos respeitar o dinheiro público.

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