Em plena comemoração do aniversário da cidade, no Camping de Costazul, a cena que se impõe é vergonhosa: catadores de latinhas impedidos de trabalhar, barrados pela segurança a mando de quem organiza o evento. Um senhor catador e uma catadora recorreram ao vereador Léo Tatá relatando a proibição, e a confirmação do impedimento expõe um fato simples e brutal: para essa gestão, o trabalhador mais vulnerável é tratado como lixo, enquanto o lixo que ele recolhe é espalhado pelo chão em nome de uma suposta “organização” da festa. Não é excesso de zelo, é crueldade social com endereço certo.
A tentativa do vereador de responsabilizar o poder público escancara o jogo de empurra. O prefeito Carlos Augusto diz que não foi ele, o secretário de Turismo, Pablo King, e o subsecretário Rodrigo Peleteiro afirmam que catador não entra com sacola de latinha. Ao mesmo tempo, o secretário acusa o parlamentar de querer “tirar sua autonomia”, como se o ego de gestor valesse mais do que o direito de alguém garantir o pão de cada dia. Autonomia de secretário que se exerce para humilhar pobres não é autonomia; é abuso travestido de autoridade.
O vídeo que circula nas redes, mostrando um catador obrigado a despejar no chão o resultado de horas de trabalho, é um atestado público de covardia institucional. As autoridades responsáveis pelo evento, em vez de articular um mínimo de organização para o trabalho dos catadores, preferiram proibir, constranger e destruir a renda daquele dia. Depois de um prefeito flagrado em discussão truculenta com ambulante, este novo episódio não é um acidente: é a continuidade de um governo que usa o aparato municipal para pisar em quem vive do trabalho mais precarizado, transformando a máquina pública em instrumento de perseguição aos pobres.
Quando um secretário que “nem conhece a cidade”, como disse o vereador, e um subsecretário que é morador e comerciante daqui aceitam barrar catadores, assumem lado: não é o lado da população, é o lado de uma cidade cenográfica, que varre os pobres para fora do enquadramento. Numa gestão minimamente comprometida com justiça social, um episódio desses seria motivo de exoneração imediata e de pedido público de desculpas. Aqui, vira rotina e deboche.
O espaço segue aberto para manifestação do prefeito Carlos Augusto e do secretário de Turismo, Pablo King, mas o que se espera deles, no mínimo, é menos desculpa esfarrapada e mais responsabilidade com quem eles insistem em humilhar.


































