Uma culinária criativa está ajudando a movimentar a economia e a fortalecer os laços comunitários em Magé, na Baixada Fluminense. Na sede da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé (ACAMM), mulheres transformam a ubarana, peixe pouco valorizado comercialmente por causa da quantidade de espinhas, em estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, coxinhas, croquetes, quibes e risoles. As receitas são produzidas na Cozinha das Caranguejeiras e vendidas em almoços especiais, encomendas e eventos para moradores, visitantes, pesquisadores, turistas e empresas.
A técnica de processamento da carne é baseada em conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações. Durante décadas, as mulheres da região do Rio Suruí, no recôncavo da Baía de Guanabara, viveram da cata de caranguejos e já preparavam a ubarana para o consumo das próprias famílias. Com a organização da associação, o pescado passou a ser beneficiado também para a venda. “Elas desenvolveram uma forma própria de preparo, que permite aproveitar sua carne sem que as espinhas sejam percebidas”, explica a bióloga Verônica Souza, do Projeto Andadas Ecológicas, iniciativa da ONG Guardiões do Mar.
A experiência já beneficia diretamente 15 mulheres e atende 24 famílias. Para Márcia Regina, pescadora por 40 anos, hoje auxiliar geral da cozinha e secretária da ACAMM, o trabalho tem impacto econômico e social. “São pratos feitos com ubarana e assim temos ajudado 15 famílias. As mulheres, às vezes com depressão, vão para a cozinha e acabam ficando boas. Juntas, a gente conversa, conta casos, histórias e problemas. Uma ajuda a outra. Acaba sendo uma ação social dentro da Cozinha”, relata. O espaço físico foi criado em 2021, com recursos de um edital do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), e posteriormente transferido para um local maior na sede da associação.
Além de gerar renda, a iniciativa está ligada à educação ambiental, à conservação dos manguezais e ao Turismo de Base Comunitária. A ACAMM promove ações de limpeza e replantio de mangue e participa da Operação LimpaOca, que já retirou 12.622 quilos de resíduos do Rio Suruí e de suas margens desde janeiro. Os visitantes também podem conhecer a fauna e a flora da região, com passeios pelo rio e observação de botos na Baía de Guanabara. Apoiada pelo Projeto Andadas Ecológicas, em parceria com a Petrobras, a Cozinha das Caranguejeiras busca mostrar que a valorização dos saberes locais pode preservar o ambiente, fortalecer a cultura e transformar um peixe antes desprezado em oportunidade para toda a comunidade.


































