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2 de fevereiro de 2026 - 11:44
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A operação do MPRJ expõe um velho vício das prefeituras: esconder o que deveria ser público

Mandado de busca e apreensão foi cumprido após resistência do município em entregar documentos sobre processo administrativo; Justiça autorizou arrombamento de cofres e armários

A operação deflagrada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) na Prefeitura de Engenheiro Paulo de Frontin, nesta sexta-feira (05/12), não é apenas mais um episódio policial envolvendo suspeitas de fraude em licitação. Ela revela, novamente, um padrão preocupante no poder público municipal: a tentativa deliberada de impedir o acesso a documentos que, por lei, deveriam ser transparentes e acessíveis.

Quando o MPRJ, por meio da Procuradoria-Geral de Justiça, precisa acionar o 2º Grupo de Câmaras Criminais para obter um simples processo administrativo já revela que há algo profundamente anormal. O município ignorou ofícios enviados desde fevereiro e apenas com decisão judicial autorizando o arrombamento de cofres, armários e gavetas a documentação começou a ser resgatada. A resistência não é detalhe — é parte essencial do problema.

As investigações já mostravam a existência de conluio entre representantes da prefeitura e a empresa vencedora da licitação para locação de veículos, denunciando um possível direcionamento que desmonta qualquer aparência de competitividade. Mas o comportamento da administração municipal nas semanas e meses anteriores à operação consolida a suspeita: quem se recusa a entregar documentos públicos não está apenas atrasando um rito burocrático — está tentando proteger alguém ou ganhar tempo para apagar vestígios.

O episódio também evidencia como administrações municipais tratam a fiscalização como incômodo, e não como obrigação republicana. A documentação que deveria ser entregue espontaneamente acabou sendo retirada à força, como se fosse um segredo de família. E foi justamente essa postura que levou o MPRJ a agir de forma mais dura, até porque a preservação das provas é condição básica para qualquer persecução penal séria.

A investigação segue, agora com acesso ao material que a prefeitura tentou reter. Mas o dano institucional já está posto: uma administração que precisa ser compelida judicialmente a colaborar com o Ministério Público demonstra desprezo absoluto pela transparência e pela legalidade. E quando a própria prefeitura se torna obstáculo à apuração, quem paga a conta é sempre a população — aquela mesma que deveria ser a verdadeira destinatária dos serviços públicos e dos recursos que, neste caso, podem ter sido desviados ou manipulados.

 

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