
A Câmara de Vereadores de Rio Bonito, na Região Metropolitana do Rio, decidiu nesta quinta-feira (4) virar as costas para a realidade do município. Em meio a atrasos de salários, escalonamento de pagamentos e dificuldade para manter serviços essenciais funcionando, os parlamentares aprovaram, com folga, uma reforma administrativa que cria duas novas secretarias e nada menos que 191 novos cargos públicos, além de aumentar os salários da cúpula do governo.
O pacote, que terá impacto anual superior a R$ 13 milhões no orçamento municipal, inclui reajuste para cargos comissionados e secretários. O vencimento dos secretários municipais salta de R$ 6.680 para R$ 10 mil. Enquanto isso, aposentados, pensionistas e servidores seguem contando moedas, enfrentando incertezas e humilhação a cada fim de mês.
A proposta passou com ampla maioria, contrariada apenas por dois vereadores. Entre os poucos que ousaram enfrentar o rolo compressor governista, o alerta foi direto: a conta não fecha. O município, segundo eles, já patina para manter compromissos básicos em dia, como o pagamento da empresa de coleta de lixo e de clínicas responsáveis por exames de imagem e análises laboratoriais. Em outras palavras: falta dinheiro para o essencial, mas sobra disposição para criar cargos e engordar salários no alto escalão.
“Seria legítimo se houvesse recurso disponível para arcar com essas novas despesas. Mas o município não consegue honrar nem as que já existem. Estamos vendo aposentados e servidores sem receber”, afirmou em plenário o vereador Teilor Cerqueira (Solidariedade), em um dos poucos discursos dissonantes da noite.
A contradição é gritante. Enquanto famílias de aposentados fazem fila em banco para descobrir se o pagamento entrou — e muitas vezes dão de cara com o extrato zerado —, a Câmara autoriza um aumento milionário na máquina administrativa, como se Rio Bonito fosse um município rico, com caixa folgado e serviços públicos exemplarmente prestados.
Esse tipo de reforma, vendida como “modernização da gestão” e “eficiência administrativa”, tem se tornado padrão em cidades onde falta transparência e sobra apetite político. Sem um debate sério com a sociedade, sem consulta a conselhos, sem ampla divulgação dos números que sustentariam tamanha expansão de gastos, a decisão dos vereadores tende a ser lida pela população pelo que ela aparenta ser: um projeto para acomodar aliados e fortalecer estruturas de poder, não para melhorar a vida do cidadão comum.
O contraste entre a pressa em votar o pacote e a lentidão — ou omissão — para resolver o drama dos aposentados e dos servidores é revelador. Quando se trata de garantir conforto para o alto escalão, a Câmara se mostra ágil, unida e eficiente. Quando o assunto é garantir salário em dia para quem passou a vida trabalhando pelo município, a resposta é silêncio, desculpas ou mais promessas vazias.
Há um dado que não pode ser ignorado: um impacto de mais de R$ 13 milhões por ano não é detalhe orçamentário, é escolha política. E, em Rio Bonito, a escolha foi clara: antes de pagar o que já deve, o município decidiu criar novas despesas permanentes. Antes de assegurar lixo recolhido, exames funcionando e folha de pagamento regularizada, preferiu ampliar secretarias e turbinar salários de secretários.
Os defensores da medida, na Câmara e no governo, terão a obrigação de explicar à população, com números e não com slogans, de onde virá o dinheiro para sustentar essa nova máquina, sem aprofundar o atraso de pagamentos nem comprometer ainda mais os serviços essenciais. Até lá, o que se vê é um abismo moral: de um lado, gabinetes ampliados; de outro, aposentados contando centavos.



























