MPF apura possível discriminação contra comerciante indígena em Búzios

Órgão cobra critérios transparentes da Prefeitura após cancelamento seletivo de licenças na Praia de João Fernandes atingir mulher Pataxó em situação de extrema vulnerabilidade

O Ministério Público Federal (MPF) recebeu representação contra a Prefeitura de Armação dos Búzios por possível prática discriminatória contra uma comerciante que se autodeclara indígena da etnia Pataxó, atuante nas praias do município. Em 27 de novembro, o MPF promoveu reunião com indígenas e representantes da prefeitura, na sede da Secretaria Municipal de Turismo, para discutir o respeito aos direitos indígenas e questionar o cancelamento das licenças da trabalhadora e de outra pessoa que atuava no mesmo espaço na Praia de João Fernandes. No mesmo movimento, o órgão enviou ofício ao prefeito pedindo explicações sobre os critérios adotados.

Na reunião, o procurador da República Leandro Mitidieri ressaltou que qualquer restrição ao uso de mesas e cadeiras na faixa de areia deve começar pelos grandes estabelecimentos – como quiosques e restaurantes, inclusive aqueles já réus em ações de demolição por irregularidades – e não recair primeiro sobre pequenos trabalhadores. Para os barraqueiros, o MPF defende que o critério correto seja o da antiguidade, atingindo inicialmente os comerciantes mais recentes. Por isso, o órgão cobrou da Prefeitura a lista completa de antiguidade de todos os barraqueiros e prestadores de serviço na praia, inclusive aluguel de equipamentos, e fixou prazo de cinco dias para resposta, diante do fato de que a representante indígena está hoje impedida de trabalhar.

A apuração nasceu de denúncia apresentada por essa mulher Pataxó, reconhecida por sua comunidade e lideranças da Terra Indígena Pataxó Aldeia Velha, que vive e trabalha em Búzios desde 2009. Ela relata perseguição e discriminação por parte de representantes da administração municipal desde que passou a atuar nas praias, e afirma que o indeferimento da renovação de sua licença foi arbitrário e desproporcional, afetando sua única fonte de renda. Grávida, mãe de três filhas menores e em situação de extrema vulnerabilidade social e alimentar, ela se tornou o símbolo de um teste crucial: se a Prefeitura de Búzios aplicará a lei de forma isonômica ou continuará permitindo que a fiscalização pese primeiro sobre os mais frágeis.


 

 

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